Das trilhas ao topo do mundo: a trajetória da montanhista brasileira Olivia Bonfim


Olívia Bonfim
09/09/2026
- Entrevistas
Das trilhas ao topo do mundo: a trajetória da montanhista brasileira Olivia Bonfim

Há cerca de dez anos, a montanha ainda não fazia parte da vida de Olivia Bonfim. A empresária e montanhista começou a fazer trilhas já adulta, depois de passar anos trabalhando no ambiente corporativo e buscar uma atividade que a ajudasse a lidar com a pressão da rotina profissional.

“Depois de inúmeras buscas, de ter outras coisas na vida que não fosse só o trabalho, as trilhas apareceram”, conta.

O que começou como uma experiência de fim de semana se transformou em uma mudança de vida. No início, Olivia não tinha preparo físico e relata que sofria durante as primeiras trilhas. A capacidade física foi construída gradualmente, assim como a confiança para enfrentar desafios maiores.

“As trilhas foram uma virada de chave pra minha carreira, pra inúmeras portas que saíram depois”, afirma.

Passo a passo até o Everest

Depois de algumas experiências no Brasil, vieram desafios como o circuito W, na Patagônia, até que surgiu o projeto de conhecer o Everest pelo trekking até o campo-base. Em 2019, Olívia embarcou para o Nepal para realizar o que considerava, até então, seu maior desafio.

Foram cerca de dez dias de caminhada em altitude. A preparação envolveu meses de treino, mudanças na alimentação e uma rotina mais disciplinada.

“Pra mim era um desafio de outro mundo”, lembra.

A experiência ultrapassou a dimensão esportiva. O contato com a cultura e a espiritualidade do Nepal transformou sua percepção sobre a montanha. “A trilha foi uma transformação. Ali a minha cabeça abriu pra inúmeras coisas.”

Ao retornar ao Brasil, porém, Olívia não quis parar no trekking de altitude. O objetivo passou a ser avançar tecnicamente.

Da escalada em rocha aos 8 mil metros

Foi em um curso de escalada em rocha que ela conheceu Carlos Santalena, que se tornaria seu marido e parceiro de expedições. A partir dali, sua relação com a montanha ganhou novos desafios.

Vieram a escalada em rocha, a escalada em gelo e as primeiras experiências em altitudes cada vez maiores. A progressão passou por montanhas como o Aconcágua e o Pico Lenin, no Quirguistão, com cerca de 7.100 metros.

A lógica era aumentar gradualmente a dificuldade e, ao mesmo tempo, entender as respostas do próprio corpo.

“Fui ganhando volume de montanhas, conhecendo como é o meu corpo em altitude, quando eu tô bem, quando eu não tô.”

Para Olívia, pular essas etapas seria um erro. Uma expedição de alta montanha envolve não apenas o esforço físico, mas também adaptação à altitude, longos períodos acampada, alimentação diferente e desgaste psicológico.

“Eu acho que a experiência é muito mais completa, é muito mais profunda se você realmente se conhece antes.”

O Double Head

A construção dessa trajetória culminou em maio de 2024, quando Olívia e Carlos chegaram aos cumes do Everest, de 8.849 metros, e do Lhotse, de 8.516 metros, em sequência e dentro de uma janela de 24 horas.

Olívia se tornou a primeira mulher brasileira a completar o Double Head. O feito também tornou o casal o primeiro do mundo a realizar a ascensão conjunta das duas montanhas; o Guinness World Records registra a conquista em 22 de maio de 2024.

A conquista, no entanto, aconteceu em uma expedição marcada por dificuldades. Durante a subida do Everest, o casal presenciou um acidente que provocou a morte de dois montanhistas. A situação interrompeu momentaneamente a expedição e acrescentou uma dimensão emocional ao desafio.

Ainda assim, Olívia e Carlos prosseguiram. O cume do Everest foi alcançado em 21 de maio e, no dia seguinte, veio o Lhotse, completando o desafio.

Preparação dentro e fora da montanha

A conquista foi resultado de anos de preparação. Durante o período em que ainda trabalhava no ambiente corporativo, Olívia tentava encaixar os treinamentos na rotina.

“Eu tentava treinar umas duas horas por dia. Mas nem sempre dava certo, trabalhava pra caramba”, conta.

A rotina combinava musculação, corrida, bicicleta e natação. Aos fins de semana, as trilhas longas em São Bento do Sapucaí serviam como treinamento específico, muitas vezes com mochila e ganho considerável de elevação.

Em alguns percursos, ela acumulava aproximadamente 600 metros de desnível e passava entre duas horas e meia e três horas em atividade.

A estratégia, segundo ela, também precisava considerar o risco de lesão. Por isso, alternava modalidades e evitava concentrar toda a carga em um único tipo de exercício.

Uma mulher em um ambiente historicamente masculino

A conquista também tem uma dimensão de gênero. Olívia conta que ainda percebe surpresa quando chega a ambientes de montanha que exigem força física.

“Eu sou pequenininha, não sou uma mulher que você olha e fala: ‘Nossa, ela é forte, vai dar conta’.”

Essas dúvidas, segundo ela, costumam desaparecer depois que o esforço começa. O olhar muda quando a capacidade física se torna evidente.

Para Olívia, porém, o cenário está se transformando. O aumento da presença feminina, os grupos de mulheres e a divulgação de experiências nas redes sociais ajudam a tornar mais natural a presença delas na montanha.

“Eu acho que sim, tem mudado bastante. As mulheres estão buscando mais isso.”

Ela também percebe mulheres chegando ao outdoor em momentos muito diferentes da vida, algumas depois dos 40 ou 50 anos e sem qualquer histórico familiar ligado à montanha.

Mais do que chegar ao cume

Apesar da dimensão dos feitos, Olívia não resume sua relação com a montanha aos cumes conquistados. O que a atrai é também o período da expedição: os acampamentos, o isolamento, a paisagem e a possibilidade de se desconectar da vida cotidiana.

“Eu gosto de curtir a expedição”, afirma.

Por isso, sua história não começa nos 8 mil metros. Começa em uma trilha no interior de São Paulo, quando uma mulher que nunca havia tido uma relação próxima com a natureza decidiu procurar uma alternativa para a rotina profissional.

Entre aquele primeiro passo e o Double Head, foram anos de aprendizado, treinamento e experiência acumulada. O Everest e o Lhotse representaram o ponto mais alto dessa trajetória até agora mas, para Olívia, a montanha continua sendo menos sobre chegar ao topo e mais sobre tudo o que acontece no caminho.

Fonte: Go Outside 

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